
Dentro da casa, Vale estava estendida de costas sobre o edredão de riscas azuis. Sabia que em breve a mãe a chamaria. Mas a minha irmã mais velha era assim mesmo: dormia sobre as obrigações e sonhava com o que não se encontrava ali. Era preciso estar sempre a chamar-lhe a atenção durante as aulas de gramática. Vale imaginava-se sempre longe, num lugar livre de deveres. Um sítio onde não lhe seria exigido nada mais do que uma ordem breve, ou a expressão de um desejo. E, contudo, era a primeira a focar-se no que havia para fazer sempre que uma desgraça acontecia.
O pai não estava à vista. Mas podíamos ouvir o ruído da sua serra hidráulica, alimentada pela água do pequeno riacho (que ele apresara, de resto). O pai era assim: podíamos sempre ouvi-lo. E, se prestássemos atenção, cheirá-lo. Esse cheiro de resina de árvores e camisas suadas dava-nos a todos uma sensação de segurança. Mesmo quando as árvores pareciam crescer sobre a clareira onde ele reconstruíra a nossa casa, a partir de uma velha barraca; mesmo quando as nuvens fugiam da montanha ao fundo e se juntavam sobre as nossas cabeças para nos ameaçar com o dilúvio.
Foi ele que me endireitou as golas da camisa de flanela azul. O que me passou a mão pelos cabelos que pareciam querer fugir para longe do lugar onde os tencionava manter. Deixou-me à distância exacta a que um pai deve deixar o filho que entra para o seu primeiro baile. E permitiu entre nós o necessário silêncio. Para que eu pudesse saborear mais um pouco o riso das bocas das raparigas que, excitadas, tinham partilhado comigo uma dança.
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